História do Vinho em Portugal: O Legado Obscuro dos Suevos e Visigodos

Basta um dia para que fortuitos acontecimentos mudem radicalmente o destino de um continente inteiro. E também para que mudem a história do vinho e da viticultura no que seria Portugal. Foi o que aconteceu no último dia do ano 406 após o nascimento de Cristo.

Fortuitamente, a invasão dos Hunos estava a empurrar as tribos germânicas para oeste. Fortuitamente, esse ano foi tão rigoroso que as míseras colheitas deram em fome. Fortuitamente, o Império Romano passava por grandes instabilidades internas. Fortuitamente, a fronteira norte do Império estava desguarnecida de tropas. E fortuitamente, o frio era tanto que o grande Rio Reno congelou.

E o Reno gelado foi a gota que fez o copo transbordar: desesperadas pela fome e acossadas nas costas pelos Hunos, as tribos germânicas aproveitaram a ausência de legionários nas guarnições para atravessar este rio que servia de fronteira entre a Gália romana e as terras bárbaras.

Tal acontecimento marcou o início do fim do aparentemente eterno Império Romano e o começo da Idade das Trevas no continente europeu. Uma a uma, as províncias romanas caíram perante a pressão dos bárbaros. A própria metrópole de Roma não escaparia ao saque e à destruição.

Uma das tribos que atravessou o Reno nesse fatídico dia foi a tribo dos Suevos. Feitos de nómadas e caçadores, os Suevos nunca haviam assentado num local para formar um reino. Todavia, nas suas deambulações para sul, pararam na cidade de Bracara Augusta (a atual cidade de Braga) e aí fundaram, finalmente, o seu reino.

Vários povos mediterrânicos já antes tinham deixado marcas indeléveis na viticultura e enologia nacionais. Porém, a contribuição de povos germânicos como os Suevos e os Visigodos permanece envolta numa névoa de mistério e esquecimento.

Chegados à Península Ibérica no século V, estes povos ditos ‘bárbaros’ herdaram um legado vinícola rico, extenso e bem estabelecido. Mas o que fizerem os bárbaros germânicos com tão precioso legado?

Os Povos Germânicos na Ibéria: Um Contexto Vitivinícola Nebuloso

Oriundos das margens do Rio Elba, os Suevos estabeleceram o seu reino na Galécia em 411. A Galécia era a província romana que englobava a atual Galiza e o norte de Portugal. Embora a sua presença seja frequentemente eclipsada pela dos Romanos e Visigodos, os Suevos desempenharam um papel fundamental na transição entre a Antiguidade Tardia e a Alta Idade Média na Península Ibérica.

No essencial, a Galécia sueva herdou a tradição vitivinícola dos Romanos. Estes haviam expandido consideravelmente a cultura da vinha e introduzido técnicas avançadas de produção e vinificação. Contudo, são escassas as informações sobre a viticultura após a queda do poder secular do Império.

Apesar da ausência de fontes diretas, é plausível que os Suevos tenham trazido consigo práticas e conhecimentos da sua terra natal. É até expectável que tenham continuado a produzir vinho através da adaptação das técnicas romanas às suas próprias necessidades e preferências.

Porém, é sabido que a conversão dos Suevos ao Cristianismo teve implicações profundas na sua relação com o vinho. Tal como hoje, este assumia um papel central nos rituais cristãos de representação simbólica do sangue de Cristo.

Os Visigodos: A Consolidação e Regulamentação da Viticultura

Os Visigodos unificaram o poder na Península Ibérica após absorverem o reino suevo no ano 585. Mais assertivos, estes novos senhores da Ibéria deixaram um acervo documental que inclui o famoso Código Visigótico do século VII.

Ao conter leis que regulavam especificamente a viticultura e a produção de vinho, este Código serve como testemunho da importância social e económica destas atividades. Uma das suas leis obrigava, por exemplo, a que fosse plantada uma nova videira por cada videira arrancada.

Os Visigodos também promoveram o consumo de vinho como parte da dieta diária. Consolidada pelo Edictum de Fructis Relaxatis do rei Ervígio em 683, esta mudança de paradigma visava alterar a imagem do vinho como algo ligado meramente ao prazer.

A Arqueologia e os Testemunhos Materiais da Produção Vinícola

A arqueologia encontrou vestígios de prensas, lagares e ânforas dos tempos visigóticos. Tais achados atestam a continuidade da produção de vinho durante este período tão vago e enigmático. Em Portugal, as ruínas de São Cucufate na Vidigueira (mostradas acima) são um dos locais onde poderão estar presentes tais indícios de viticultura visigótica. Ainda assim, estes achados são raros quando comparados com as evidências arqueológicas deixadas nos períodos romano e islâmico.

Castas, Técnicas e Estilos de Vinho dos Germânicos

Os Visigodos detiveram-se durante quase um século na atual região francesa de Bordéus antes de chegarem à Península Ibérica. Na altura denominada ‘Aquitania Secunda’, esta região já possuía extensas vinhas de génese romana. É possível, portanto, que os povos germânicos tenham daí trazido novas castas para o presente território português. Os textos visigóticos também mencionam diferentes tipos de vinho, como o branco encorpado feito com a casta Aminea ou o doce da casta Apiana.

Como expectável, as técnicas de vinificação visigóticas estavam muito alicerçadas nas práticas precedentes. Estas práticas abrangiam a fermentação em ânforas de barro e o envelhecimento em barricas de carvalho, por exemplo. Contudo, os Visigodos poderão ter introduzido as suas próprias adaptações.

O Legado Germânico na Enologia Ibérica

A cultura vitivinícola dos povos germânicos parece ter sido pautada pela continuidade e não pela inovação. Mesmo assim, a sua ênfase no vinho como parte integrante da vida religiosa e quotidiana pode ter solidificado a viticultura no nosso presente território.

A preservação das tradições vinícolas de Roma, a regulamentação legal, a democratização do consumo e a influência na cultura do vinho são aspetos-chave da herança recebida destes povos germânicos.

É possível que tal herança se encontre bem visível na própria organização da terra devotada à agricultura – de facto, a influência dos germânicos pode persistir no norte de Portugal através da manta de retalhos dos minifúndios.

A prevalência destas pequenas explorações agrícolas nortenhas tem sido atribuída a padrões históricos de povoamento que remontam ao período de domínio dos Suevos. Isto contrasta com os grandes latifúndios típicos do sul de Portugal e cujas origens remetem aos sistemas de distribuição de terras romanos e medievais. Mas, tal como boa parte do conhecimento que rodeia estes povos, também isto é obscuro.